Um esquema de resgate, uma maneira provisória de evitar prejuízos e até mudar de endereço. Essas são algumas práticas adotadas por moradores de São Luiz do Paraitinga, que viram a cidade ruir após a enchente de 2010.

enchente (Foto: Carlos Santos/G1)

O objetivo de todos é o mesmo: evitar que a chuva cause os mesmos estragos que até hoje são visíveis na cidade, ainda em processo de reconstrução. Entre os exemplos está a própria sede do governo municipal, que ainda está com tapumes. A entrada dos funcionários é feita pela parte dos fundos do prédio.

São Luiz do Paraitinga registrou no último sábado (12) a maior enchente desde a tragédia que, há três anos, destruiu o município. Ao todo, 96 casas foram atingidas e 240 pessoas ficaram desalojadas. Nesta terça-feira (15), 17 pessoas continuam no abrigo municipal. Cerca de cem estão em casas de parentes. O Rio Paraitinga está dois metros acima do normal. A expectativa é que o nível comece a baixar na tarde desta terça-feira.

Resgate
Os botes de rafting do empresário João Espírito Santo estão de prontidão para salvar vidas. Morador de São Luiz do Paraitinga e um dos responsáveis pelo resgate das vítimas durante a tragédia registrada em 2010, ele diz que faltaram investimentos públicos para evitar que novas enchentes fossem registradas na cidade do interior de São Paulo.

“Se precisar da gente, estamos à disposição para ajudar novamente. Os botes estão no galpão, prontos para ir para o rio”, afirma o empresário, que tem uma operadora de rafting na cidade.

Estratégia

O professor Juscelino Pedroso Moraes adota uma uma estratégia provisória para não perder as coisas que recuperou e ainda está pagando. “Eu subo tudo para a parte de cima do sobrado. Levo tudo para lá e só coloco para baixo quando vejo que a água não pode atingir. Em 2010, saí com uma bermuda e, na correria, trouxe uma gaveta inteira com remédios”, conta aoG1 o professor, que continua vivendo às margens do rio.

Ele é um dos que moradores foram salvos pela iniciativa de voluntários do rafting em 2010 e diz que espera não precisar do auxílio novamente. “Tive que sair pela sacada do meu sobrado. Aquela enchente engoliu minha casa. A água ficou mais de 1,70 cm para cima dela”, relembra.

Mudança

A solução encontrada pelo militar José Henrique Ribeiro, de 27 anos, para evitar perdas com as enchentes foi mudar de endereço. Atualmente, ele vive em uma outra casa, em um local mais alto, onde acredita que a água não chegue. O militar morava às margens do Rio Paraitinga e perdeu tudo no desastre de 2010.

“Estava dormindo com minha esposa e nos acordaram para tirar as coisas de casa. Tirava uma coisa e quando voltava o nível da água já tinha subido um palmo. Parecia até filme”, afirma.

Ribeiro e a mulher retiraram os pertences de casa e levaram tudo para a casa do sogro, onde planejavam ficar alojados. A água continuou subindo e nem o sobrado da família da esposa de Ribeiro suportou. Durante a noite, toda a família teve que ser retirada de bote do local.

“Tentamos tirar as coisas da nossa casa e acabamos perdendo tudo depois. A água pegou tudo. A gente nunca imaginava que ia subir daquele jeito”, conta.

Preparo

Enquanto os moradores procuram alternativas para evitar prejuízos com as enchentes, pouco foi feito para se evitar que a cidade sofra com o problema novamente.

Em três anos, a Defesa Civil conseguiu apenas melhores equipamentos e condições de trabalho. Na prática, não houve soluções para conter a cheia do rio, apenas para monitorá-lo.

De acordo com o coordenador da Defesa Civil, José Carlos Rodrigues, a cidade tem seis estações telemétricas instaladas ao longo do rio. De 10 em 10 minutos é possível prever o quanto vai encher o rio e o quanto vai chover na cidade e na bacia dele. A Defesa Civil também instalou réguas ao longo do rio e ganhou melhores viaturas para atendimento e um posto de comando.

Segundo Rodrigues, a chuva em outras cidades é que provocou as inundações em Paraitinga. “O problema foi a chuva em outras cidades que integram a bacia como, por exemplo, Cunha. Lá choveu demais e se refletiu aqui em São Luiz”, diz. Mesmo assim, ele afirma que ainda são necessárias obras de desassoreamento do rio para evitar inundações na cidade.