Em 27 de outubro de 1982, as últimas rochas das Sete Quedas foram cobertas pelas águas do Rio Paraná
Cintia Marques/Município de Guaíra –
Há 44 anos, em 27 de outubro de 1982 , as águas do Rio Paraná encobriam definitivamente as últimas rochas visíveis das Sete Quedas. Desaparecia da superfície uma das mais extraordinárias maravilhas naturais do planeta, reconhecida como a maior cachoeira do mundo em volume de água.
Desde então, todos os anos, o Município de Guaíra reserva um espaço para trazer essa história de volta à superfície.
Para alguns, é saudade. Para outros, indignação, revolta ou tristeza. Há quem considere o assunto superado, quem questione a necessidade de relembrá-lo e quem sinta curiosidade por uma paisagem que nunca teve a oportunidade de conhecer.
São diferentes sentimentos diante de uma mesma história.
Mas por que continuar a falar das Sete Quedas depois de mais de quatro décadas?
Porque preservar a memória não significa viver preso ao passado.
O Município de Guaíra reconhece o desaparecimento das Sete Quedas como um capítulo importante não apenas da história local, mas também do Brasil, do Paraguai e do desenvolvimento energético mundial. Uma história que envolve natureza, engenharia, economia, política, diplomacia, escolhas e consequências.
Recordá-la é uma forma de preservar o conhecimento, estimular reflexões e transmitir às novas gerações a dimensão de um acontecimento que transformou a realidade de dois países.
Para quem viu as quedas e ainda guarda o som das águas na memória. Para quem acompanhou sua despedida. Para quem nasceu depois e conhece aquela grandiosidade apenas por fotografias, vídeos ou relatos.
A memória das Sete Quedas pertence a todas essas gerações.
Não importa quantos anos se passem. As Sete Quedas existiram. Sua grandiosidade foi real. Seu desaparecimento também.
Em 2026, porém, o Município de Guaíra propõe uma abordagem diferente.
Em vez de apenas recordar o que foi perdido, o convite é compreender o mundo em que aquela decisão foi tomada
Como era o Brasil das décadas de 1960, 1970 e 1980? O que significava desenvolvimento naquele tempo? Quais interesses econômicos, políticos e diplomáticos estavam envolvidos? Existiam alternativas? E o que levou dois países a escolherem um projeto que exigiria o desaparecimento de uma maravilha natural?
Para refletir sobre essas perguntas, é preciso voltar ao início dessa história.
Muito antes de Itaipu, muito antes de Guaíra e Salto del Guairá se tornarem cidades de fronteira, o Rio Paraná já esculpia uma das paisagens mais impressionantes do planeta.
A formação das Sete Quedas remonta a milhões de anos. A atividade vulcânica que deu origem aos paredões de basalto, associada à ação contínua das águas, formou saltos, corredeiras e canais de proporções extraordinárias.
Eram 19 saltos distribuídos em sete grupos, reconhecidos pelo imenso volume de água . O rugido das águas podia ser ouvido a quilômetros de distância, enquanto colunas de vapor se erguiam sobre os paredões.
Muito antes da chegada dos europeus, povos indígenas já conheciam a região. Suas rotas integravam uma extensa rede de caminhos, entre eles o Peabiru, que conectava diferentes territórios da América do Sul.
O escritor e historiador Cristian Aguazo, no vídeo Histórias de Guaíra, relata a passagem do explorador Aleixo Garcia pela região por volta de 1525. Ao longo dos séculos, as quedas também integraram caminhos comerciais, atividades ligadas à erva-mate e, posteriormente, tornaram-se um importante atrativo turístico.
Sete Quedas fazia parte da economia, da identidade e das perspectivas de futuro das comunidades da fronteira.
E há um aspecto que merece destaque: as Sete Quedas não eram um patrimônio exclusivo de Guaíra. A paisagem integrava uma região compartilhada entre Brasil e Paraguai, com ligação direta entre Guaíra e Salto del Guairá.
A mesma força das águas que encantava visitantes também despertava o interesse de engenheiros e governos.
Para compreender como essa riqueza natural se tornou parte de um projeto hidrelétrico, é necessário conhecer o Brasil que se desenhava nas décadas de 1960 e 1970.
O país buscava acelerar a industrialização, ampliar a infraestrutura e acompanhar o crescimento das cidades. A demanda por eletricidade aumentava à medida que fábricas, comércios e residências incorporavam novas tecnologias.
O progresso era frequentemente associado à construção de grandes obras, ao aumento da produção e à conquista de bens de consumo. Para muitas famílias, ter uma televisão, uma geladeira, um automóvel ou uma máquina de lavar representava a possibilidade de uma vida melhor.
Esses objetos, hoje tão comuns, eram símbolos de conforto, modernidade e ascensão social. A promessa de desenvolvimento, entretanto, convivia com profundas desigualdades, e milhões de brasileiros ainda estavam distantes daquela prosperidade.
Era também uma sociedade com outras formas de comunicação e acesso à informação. As notícias chegavam principalmente pelo rádio, pela televisão e pelos jornais impressos. A pesquisa dependia de livros, bibliotecas e especialistas. As distâncias pareciam maiores, e a velocidade das transformações era diferente.
A preservação ambiental já mobilizava pesquisadores, movimentos sociais e setores da população. Em 1972, a Conferência de Estocolmo havia colocado o tema no debate internacional. Entretanto, a proteção da natureza ainda não possuía o mesmo peso institucional e social que conquistaria nas décadas seguintes.
Nesse ambiente, grandes empreendimentos eram apresentados como caminhos para o desenvolvimento, a soberania e o crescimento econômico. A energia elétrica ocupava posição central nessa perspectiva de futuro.
Desde o governo de Juscelino Kubitschek, estudos buscavam formas de aproveitar o potencial hidrelétrico do Rio Paraná. Diferentes projetos foram considerados.
Conforme os relatos históricos apresentados por Cristian Aguazo, propostas associadas aos engenheiros Pedro Hupp e Octávio Marcondes Ferraz, além de alternativas de origem japonesa e soviética, estudaram formas distintas de aproveitamento energético. Algumas contemplavam a possibilidade de preservar as quedas.
Portanto, o desaparecimento daquela paisagem não era uma consequência inevitável de qualquer projeto hidrelétrico. Havia alternativas em discussão.
Mas a escolha que prevaleceu não dependia apenas da engenharia.
O mundo vivia a Guerra Fria, marcado pela disputa política e ideológica entre Estados Unidos e União Soviética. O Paraguai era governado por Alfredo Stroessner, enquanto o Brasil, após o golpe de 1964, também estava sob um regime militar.
Além da necessidade de energia, existia uma antiga divergência territorial entre Brasil e Paraguai, relacionada à definição das fronteiras após a Guerra do Paraguai. Embora o Tratado de Limites de 1872 tivesse estabelecido referências para a divisão territorial, a região de Sete Quedas permaneceu no centro de um impasse diplomático que se agravou na década de 1960.
A aproximação entre os dois países, por meio de um empreendimento binacional, representava uma oportunidade de cooperação e de encaminhamento das tensões territoriais.
Foi nesse cenário que Itaipu ganhou força.
A usina reunia interesses estratégicos de dois países: garantir energia para a industrialização, impulsionar a economia, ampliar a infraestrutura, criar empregos, fortalecer a cooperação entre Brasil e Paraguai, reduzir tensões diplomáticas e demonstrar capacidade tecnológica.
Para os governos militares, uma obra daquela magnitude também representava uma demonstração de poder, desenvolvimento e capacidade de realização.
Em 22 de junho de 1966, a Ata de Iguaçu formalizou o entendimento entre Brasil e Paraguai para o aproveitamento conjunto dos recursos hídricos. Em 26 de abril de 1973, foi assinado o Tratado de Itaipu, durante os governos de Emílio Garrastazu Médici e Alfredo Stroessner.
Mas essa solução exigia um sacrifício.
O reservatório cobriria as Sete Quedas.
Na década de 1970, Guaíra e Salto del Guairá eram cidades pequenas, com pouca força política diante das decisões estratégicas de dois países. Na lógica daquele período, a perda de uma paisagem localizada junto a centros urbanos de menor porte pode ter parecido um custo aceitável diante dos interesses nacionais.
Essa interpretação não diminui a dimensão da perda, mas ajuda a compreender a diferença entre o poder de quem decidia e a realidade das comunidades que sofreriam as consequências.
Houve resistência.
Ambientalistas, moradores, intelectuais e representantes políticos se manifestaram contra o desaparecimento das quedas . O Kuarup, ato simbólico de despedida inspirado em tradições indígenas, reuniu pessoas em defesa daquele patrimônio. O poeta Carlos Drummond de Andrade deu visibilidade nacional à causa, enquanto, em Guaíra, o vereador Jeremias Lobato esteve entre as vozes contrárias ao projeto.
A mobilização ocorreu sob uma ditadura militar, em um período de censura e restrições ao debate público.
Os últimos meses também foram marcados pela tragédia. Em janeiro de 1982, o rompimento de uma ponte na área das quedas provocou a morte de 32 pessoas , episódio que aprofundou a dor associada à despedida daquele lugar.
Em 19 de setembro de 1982, o Parque Nacional de Sete Quedas foi fechado à visitação.
Em 13 de outubro, teve início a formação do reservatório de Itaipu. Ao longo dos 14 dias seguintes, as águas subiram e cobriram os saltos, os paredões e os caminhos que durante séculos fizeram parte da paisagem.
Em 27 de outubro de 1982, as últimas rochas visíveis desapareceram sob as águas.
As Sete Quedas estavam definitivamente submersas.
Quarenta e quatro anos.
Pode parecer pouco diante dos milhões de anos que a natureza levou para formar as Sete Quedas. Mas basta observar a própria vida para perceber o quanto o mundo mudou desde outubro de 1982.
Mudaram as cidades, as estradas, as casas, a medicina, a engenharia, a comunicação e a maneira como a sociedade se relaciona com o planeta. O conhecimento que antes estava restrito a bibliotecas, universidades e especialistas agora cabe na palma da mão.
Quem viveu aquela época testemunhou uma transformação extraordinária. Quem nasceu depois encontrou um mundo cada vez mais conectado, com tecnologias e possibilidades que as gerações anteriores dificilmente poderiam imaginar.
E, mesmo para quem esteve lá, é difícil reconstruir aquela realidade sem a influência de tudo o que se aprendeu depois.
Antes de apontar os culpados, experimente voltar no tempo.
Mas sem o celular no bolso, sem a internet à disposição, sem o conhecimento ambiental acumulado nas últimas quatro décadas e sem as certezas que o futuro trouxe.
Deixe de lado, por um instante, as opiniões prontas e os julgamentos construídos a partir da realidade atual.
Volte para aquele Brasil. Para o mundo dividido pela Guerra Fria, para a necessidade de energia, as ambições de desenvolvimento, as tensões diplomáticas e as alternativas de engenharia daquele período.
Imagine ocupar o lugar de quem precisava decidir, com os mesmos conhecimentos disponíveis, diante das mesmas pressões e sem a possibilidade de conhecer o futuro.
O que você faria?
Salvaria as Sete Quedas a qualquer custo? Escolheria outro projeto? Conseguiria conciliar todos aqueles interesses? Teria força política para isso? E conseguiria enxergar, naquele momento, tudo o que hoje parece tão evidente?
Talvez fizesse diferente. Talvez não.
Essa reflexão não pretende inocentar os responsáveis, apagar a resistência de quem lutou pela preservação ou transformar uma perda irreversível em algo inevitável . Havia alternativas e pessoas que já compreendiam a dimensão do sacrifício.
É fácil julgar o passado com a consciência do presente. Difícil é compreender o passado com os olhos de quem ainda não conhecia o amanhã.
Sob essa perspectiva, as Sete Quedas podem ser compreendidas simbolicamente como um mártir do desenvolvimento. Uma maravilha natural sacrificada para que interesses econômicos, políticos, diplomáticos e sociais de uma época pudessem avançar.
A construção de Itaipu contribuiu para a industrialização, a expansão econômica, a cooperação entre Brasil e Paraguai e a transformação da vida de milhões de pessoas.
A paisagem, porém, não voltou. Os caminhos desapareceram, o rugido das águas deixou de ser ouvido e gerações inteiras perderam a oportunidade de contemplar uma das maiores manifestações da natureza.
Mas a força do Rio Paraná permaneceu. As águas que antes impressionavam pela beleza e grandiosidade das quedas passaram a movimentar turbinas, iluminar cidades, abastecer indústrias e contribuir para o funcionamento de hospitais, escolas e inúmeras atividades essenciais à sociedade.
As Sete Quedas não se transformaram literalmente em Itaipu. Mas a força do mesmo rio que criou aquele espetáculo natural passou a sustentar uma obra que mudou a realidade de dois países.
As duas histórias pertencem ao mesmo rio. Uma representa aquilo que a humanidade foi capaz de construir. A outra lembra aquilo que a humanidade foi capaz de perder.
Nenhuma quantidade de energia produzida é capaz de reconstruir aquela paisagem . E reconhecer a importância de Itaipu não exige esquecer o valor insubstituível das Sete Quedas.
Por isso, ao acender uma luz, talvez exista espaço para recordar que a energia elétrica, tão comum na vida moderna, também carrega histórias de escolhas, conquistas e renúncias.
Neste outubro, além da saudade e da indignação, pode haver espaço para o reconhecimento e a gratidão. Gratidão à natureza que ofereceu as Sete Quedas. Respeito às gerações que as conheceram, às pessoas que lutaram por sua preservação e àquelas que jamais tiveram a oportunidade de contemplá-las.
Talvez a maior homenagem às Sete Quedas, 44 anos depois, seja reconhecer o tamanho de seu sacrifício e aprender com sua história antes de decidir o que a sociedade está disposta a perder em nome do próprio futuro.
As Sete Quedas permanecem submersas. Mas a força do Rio Paraná continua a fazer parte da vida de milhões de pessoas.
E a pergunta que aquela paisagem deixou continua à superfície:
Se estivesse lá, naquele tempo, você teria feito diferente?
Fonte: TV Sobrinho





